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A vitória da democracia também precisa ser uma vitória da representatividade racial - Por Canal de Voz (Marcos Benedito)

O Brasil vive um momento de grande repercussão política. Após uma vitória eleitoral histórica, Lula fez um pronunciamento abordando a democracia, a participação popular e os compromissos de governo. Entretanto, um aspecto merece reflexão: onde estão as lideranças negras brasileiras e por que a militância negra não recebeu o devido destaque nesse momento?

O Brasil possui homens e mulheres negros com trajetórias reconhecidas na política, na educação, nos movimentos sociais, na cultura, no sindicalismo e na luta pelos direitos humanos. São pessoas que dedicam suas vidas ao combate ao racismo, à defesa da democracia e à construção de uma sociedade com igualdade de oportunidades.

Não estamos falando de pessoas sem história ou sem participação política. Estamos falando de lideranças que construíram sua trajetória ao longo de décadas, enfrentando preconceitos, organizando movimentos e defendendo direitos.

Diante disso, a pergunta é inevitável: ONDE ESTÃO ESSAS LIDERANÇAS?

Lideranças negras que fazem parte dessa história

Entre as referências históricas da luta antirracista brasileira está Milton Barbosa, fundador do Movimento Negro Unificado (MNU), organização fundamental na mobilização política contra o racismo no país.

Também merece destaque Edson França, dirigente do PCdoB e militante da pauta racial; Claudinho Silva, conhecido como Claudinho Ouvidor, com trajetória nos movimentos negro e hip-hop e passagem pela Ouvidoria das Polícias de São Paulo; e Paulo Paim, senador com longa atuação na defesa dos direitos dos trabalhadores e da igualdade racial.

A relação inclui ainda Edson Cardoso, jornalista e intelectual ligado à imprensa negra; Douglas Belchior, educador popular e ativista da Uneafro Brasil; Reginaldo Bispo, militante histórico do movimento negro; e Orlando Silva, político com atuação em pautas relacionadas à igualdade racial, Matilde Ribeiro, Lessa Reis e Eloá Kátia Coelho, Francisco Quintino, Fabrício Camilo, Kabengelê Munanga e muitos outros.

Também acrescentamos Rafael Pinto, Kika Silva, Egbommy Conceição e Rosana, da CUT, Frei David, Pastor Kleber Lucas, Deputado Federal Vicentinho, Gilson Negão, Martvs Chagas, Dr. Ramatis Jacino, nomes indicados nesta reflexão como parte do conjunto de lideranças que merecem reconhecimento e visibilidade.

Outro nome importante é Iêda Leal, educadora e militante histórica da luta antirracista, com atuação na defesa da igualdade racial e no enfrentamento à discriminação.

São trajetórias distintas, mas que convergem para uma questão central: o reconhecimento da contribuição da população negra na construção de uma sociedade democrática.

E as mulheres negras? Onde estão suas vozes?

A representatividade também precisa contemplar as mulheres negras, que enfrentam, muitas vezes, o racismo e a desigualdade de gênero simultaneamente.

Benedita da Silva, com sua trajetória na política brasileira; Sueli Carneiro, filósofa e referência do feminismo negro; Cida Bento, psicóloga e pesquisadora das relações raciais; Jurema Werneck, médica e ativista dos direitos humanos; Nilma Lino Gomes, educadora e pesquisadora; e Lúcia Xavier, fundadora da organização Criola, são exemplos de mulheres cuja contribuição merece reconhecimento.

Também podemos citar Erika Hilton, Talíria Petrone, Carol Dartora e Dandara Tonantzin, parlamentares com atuação em diferentes pautas sociais, além de Lídice da Mata, política com longa trajetória na vida pública brasileira.

Esses nomes representam apenas uma parte de um universo muito maior de mulheres negras que atuam na educação, na política, no sindicalismo, na cultura, nas universidades, nas comunidades e nas organizações sociais.

Portanto, não faltam referências. Não faltam histórias. Não faltam pessoas comprometidas com a igualdade racial.

O que precisamos discutir é a visibilidade que essas lideranças recebem e o espaço que ocupam nos grandes acontecimentos nacionais.

Um discurso histórico e uma ausência que merece reflexão

Em seu pronunciamento, Lula abordou a importância da vitória eleitoral, os compromissos de governo e a participação de diferentes segmentos da sociedade.

Os idosos foram lembrados, inclusive com referência às pessoas que enfrentaram dificuldades de locomoção e receberam ajuda dos próprios netos para exercer o direito ao voto. A juventude e as mulheres também foram contempladas na narrativa sobre a participação popular.

Entretanto, cabe uma pergunta: onde ficou o reconhecimento explícito da população negra e da militância antirracista nesse pronunciamento?

Onde foi destacada a contribuição dos homens e das mulheres negras que participam da vida política, mobilizam comunidades, defendem direitos e atuam na construção da democracia brasileira?

A questão não é diminuir a importância dos idosos, das mulheres ou dos jovens. Todos merecem reconhecimento. O problema surge quando determinados segmentos recebem destaque enquanto outros parecem não encontrar espaço equivalente.

A população negra não pode ser lembrada somente quando se discutem políticas de combate ao racismo, durante as campanhas eleitorais ou nas datas comemorativas.

Sua participação precisa ser reconhecida também nos discursos institucionais, nas equipes de governo, nos espaços de decisão e nos momentos que entram para a história política do país.

Uma fotografia que pode percorrer o mundo

Outro aspecto merece atenção: a fotografia do pronunciamento reproduzida pela TV Globo e potencialmente compartilhada por veículos de comunicação e pelas redes sociais no Brasil e no exterior.

Segundo a descrição apresentada para esta análise, entre dezenas de pessoas presentes na imagem, apenas uma pessoa negra estaria representada.

Se essa descrição corresponder à fotografia original, temos um elemento importante para discutir a representatividade nos espaços de visibilidade política.

Uma fotografia não permite, isoladamente, concluir que houve exclusão deliberada. Também não representa necessariamente todas as pessoas que participaram de uma campanha ou contribuíram para um resultado eleitoral.

Mas imagens públicas possuem força simbólica. Elas mostram quem ocupa determinado espaço, quem aparece ao lado das principais figuras políticas e quem acaba sendo associado visualmente a um acontecimento histórico.

Por isso, a pergunta permanece: entre tantas lideranças negras que contribuíram para a vida democrática brasileira, por que a presença negra parece tão reduzida nessa imagem?

Onde estão Milton Barbosa, Paulo Paim, Edson França, Claudinho Silva, Iêda Leal e tantas outras referências da luta racial?

Onde estão as mulheres negras que dedicaram suas vidas à educação, aos direitos humanos, à organização social e à transformação da realidade brasileira?

Não se trata de afirmar que todos deveriam estar necessariamente naquela fotografia. Trata-se de questionar por que a representatividade negra ainda é motivo de preocupação em espaços públicos de grande projeção.

A democracia precisa ser representada de maneira compatível com a diversidade da sociedade que pretende representar.

A militância negra também merece reconhecimento

É preciso reconhecer que a participação política não se limita aos candidatos, aos dirigentes partidários ou às pessoas que aparecem nos palanques.

Existe uma militância que trabalha nas comunidades, dialoga com os eleitores, organiza atividades, defende propostas e participa das mobilizações. Muitas vezes, esse trabalho acontece longe das câmeras.

Entre essas pessoas estão homens e mulheres negros que, independentemente de sua posição partidária, lutam por direitos, enfrentam o preconceito e reivindicam oportunidades iguais.

Não é possível afirmar, sem comprovação individual, qual foi a contribuição de cada liderança para o resultado eleitoral mencionado. Mas é legítimo questionar se o trabalho histórico da militância negra recebe a visibilidade e o reconhecimento compatíveis com sua importância para a democracia brasileira.

A cobrança deve alcançar os partidos políticos, os governos, os movimentos sociais e as próprias organizações antirracistas.

As lideranças negras estão participando efetivamente das decisões? Suas propostas são consideradas? Existe espaço para que ocupem posições de responsabilidade? A representatividade aparece somente nos discursos ou também se traduz em oportunidades concretas?

Essas perguntas precisam fazer parte do debate público.

Onde estão nossas lideranças?

Esta reflexão não pretende diminuir o resultado eleitoral de Lula nem desconsiderar os compromissos apresentados em seu pronunciamento. O objetivo é chamar a atenção para uma questão que continua relevante: a distância entre a defesa da igualdade e a representação efetiva da população negra nos espaços de poder e reconhecimento.

Se milhões de brasileiros participam da construção da democracia, é necessário que diferentes segmentos sociais tenham suas contribuições reconhecidas.

A população negra não pode ser tratada como uma presença secundária na história do país. Sua participação está presente na formação do Brasil, na cultura, na economia, na educação, na política e nos movimentos que lutam pela ampliação de direitos.

E é justamente por reconhecer essa importância que precisamos perguntar:

Onde estão nossas lideranças negras nos grandes momentos da democracia brasileira?

Por que referências históricas como Milton Barbosa e Paulo Paim, dirigentes como Edson França, militantes como Claudinho Silva e Iêda Leal, além de tantas outras lideranças negras, raramente aparecem em algumas das imagens mais simbólicas da política nacional na proporção que essa contribuição histórica nos leva a discutir?

Por que as mulheres negras ainda precisam lutar para que suas trajetórias sejam reconhecidas com a mesma visibilidade?

E por que a representatividade racial continua sendo uma questão a ser cobrada, inclusive de setores políticos que defendem a democracia e a igualdade de direitos?

A democracia não se fortalece apenas pelo resultado das urnas. Ela também se fortalece quando reconhece a diversidade de pessoas que participam de sua construção.

Uma vitória eleitoral pode ser histórica. Mas a representatividade precisa ser permanente, concreta e visível.

A luta contra o racismo não termina nas urnas. Continua nos espaços de poder, nas decisões de governo, nos discursos públicos e no reconhecimento daqueles que também constroem a história deste país.

Fica, portanto, a pergunta fraternal para o companheiro e Presidente reeleito Lula, para os partidos políticos, para os movimentos sociais e para as próprias lideranças negras

Por que, em um momento de tamanha repercussão política, a militância negra e suas referências históricas não receberam o destaque que essa discussão sobre representatividade exige?

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