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Doutrina Monroe - Por: Marcos Benedito - 03/01/2026


Onde a Doutrina Monroe foi usada como instrumento de dominação

A chamada Doutrina Monroe não surgiu por acaso, nem por boa vontade. Ela foi criada em 1823, quando os Estados Unidos ainda estavam se afirmando como nação, mas já pensavam como império em formação. O contexto era claro: países da América Latina estavam se libertando das coroas europeias, especialmente da Espanha e de Portugal, e as grandes potências do Velho Mundo observavam com interesse a possibilidade de retomar influência sobre essas regiões.

Foi nesse cenário que os EUA se apresentaram como “protetores” do continente. O discurso oficial dizia que a Europa não deveria mais interferir nas Américas. Soava bonito, até necessário. Mas o objetivo real era outro: afastar os europeus para assumir o controle do território, da política e da economia do continente.

Nascia ali a famosa frase:

“A América para os americanos.”

Só que nunca ficou claro quem eram esses “americanos”.

Na prática, a doutrina estabeleceu que nenhum país das Américas poderia tomar decisões importantes sem passar pelo crivo dos Estados Unidos. Quem obedecia, era tolerado. Quem contrariava interesses econômicos, políticos ou estratégicos, era pressionado, isolado ou derrubado.

Com o passar do tempo, a Doutrina Monroe deixou de ser apenas uma declaração diplomática e passou a funcionar como licença ideológica para intervir, sempre que fosse conveniente.

Ao longo da história, a chamada Doutrina Monroe, apresentada ao mundo com um discurso de proteção e soberania das Américas, foi, na prática, um instrumento de controle, domínio e imposição dos interesses dos Estados Unidos sobre diversos países do nosso continente.

O discurso era bonito: “a América para os americanos”.

Mas, na realidade, o que se viu foi: a América Latina sob vigilância, pressão e intervenção constante.

Diversos países sentiram isso na pele.

No México, por exemplo, a intervenção norte-americana não foi apenas política. Foi territorial. Em nome da “segurança” e da “estabilidade”, os EUA avançaram militarmente e tomaram quase metade do território mexicano. Uma ferida histórica que até hoje ecoa.

Em Cuba, após expulsar a Espanha, os Estados Unidos não devolveram ao povo cubano sua plena soberania. Passaram a controlar a política, a economia e até o território, mantendo até hoje a base de Guantánamo como símbolo dessa imposição.

O Haiti, um dos países mais pobres do continente, sofreu ocupação direta por quase 20 anos. Não foi para ajudar o povo, mas para controlar finanças, portos e interesses estratégicos.

Na Nicarágua, na República Dominicana e em Honduras, o roteiro se repetiu: instabilidade política servia de desculpa para intervenção militar, manipulação de governos e proteção de empresas estrangeiras. Honduras, inclusive, ganhou o rótulo vergonhoso de “república das bananas”.

Na Guatemala, quando um governo tentou fazer reforma agrária e mexer em interesses econômicos dos EUA, veio o golpe. O resultado foi uma longa guerra civil e milhares de mortos.

Na América do Sul, a interferência foi mais silenciosa, porém não menos cruel.

No Chile, no Brasil, na Argentina e em outros países, os Estados Unidos atuaram nos bastidores, apoiando golpes militares, financiando ditaduras e sufocando qualquer governo que ousasse sair da cartilha imposta durante a Guerra Fria.

No Panamá, a intervenção foi direta novamente, sempre com o argumento do controle do Canal — um ponto estratégico que nunca esteve realmente fora das mãos norte-americanas até o fim do século XX.

Mais recentemente, países como a Venezuela continuam sentindo os efeitos dessa mesma lógica: sanções, isolamento, pressão política e econômica — tudo embalado no discurso antigo e reciclado da “defesa da democracia”.

Conclusão clara e sem rodeios

A Doutrina Monroe não libertou a América Latina.

Ela apenas trocou o dominador europeu por um novo império, mais moderno, mais poderoso e mais estratégico.

O continente deixou de ser colônia formal, mas passou a ser zona de influência, onde governos só são aceitos quando servem a interesses externos.

A história mostra que, sempre que um país tentou andar com as próprias pernas, a doutrina foi reativada, reinterpretada e usada como arma política.

Fonte:

Este texto dialoga com documentos históricos do governo dos Estados Unidos e estudos de Ernest R. May, Walter LaFeber, George C. Herring, Noam Chomsky e Greg Grandin sobre a Doutrina Monroe e a política externa norte-americana.

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