Pular para o conteúdo principal

Por que África é um dos continentes com 'menos mortes' por covid? Israel Campos De Londres para a BBC News Brasil - 14 dezembro 2021

 

mulher sendo vacinadaApesar de ter sido apontado como um grande foco de preocupação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020, devido ao seu frágil sistema de saúde e falta de condições sanitárias adequadas, o continente africano continua a ser dos menos afetados pela covid-19, quando comparado com a Europa, as Américas e a Ásia.

Só a Oceania tem menos mortes, em números absolutos, que a África.

Enquanto nas Américas já morreram mais de 1,5 milhões de pessoas desde o início da pandemia, na África, o número total de mortes é de pouco mais de 224 mil.

    Mais de 600 mil brasileiros morreram de covid desde o início da pandemia, ou seja, o Brasil teve quase três vezes mais mortes que todo o continente africano. E a África tem um bilhão de pessoas a mais que o Brasil. Mas o que existe por trás deste "fenômeno"?Legenda do vídeo,Número de mortes no continente representa um terço do total registrado no Brasil.

    A BBC News Brasil lista aqui cinco teorias que podem explicar melhor o que tem acontecido na África:

    1. Média de idade

    Segundo dados da ONU, a população africana é a mais jovem do mundo, com uma idade média de 19 anos.

    Globalmente, a maioria das mortes por covid-19 ocorre em pessoas com 65 anos de idade ou mais. Ou seja, o fato de a África ter uma população bastante jovem pode ter tido um papel relevante no seu número de mortes por coronavírus.

    Vamos comparar dois países com tamanho populacional semelhante para essa diferença ficar mais clara: Canadá e Uganda. No Canadá, a idade média é de 41 anos e a expectativa de vida é de 82 anos. Cerca de 18% da população tem 65 anos ou mais.

    Já em Uganda a expectativa de vida é bem mais baixa, de 63 anos. A idade média lá é de 16 anos e apenas 2% da população têm 65 anos ou mais.

    Na pandemia de covid-19, os dois países têm tido resultados bastante diferentes. Até o momento, o Canadá registrou quase 1,8 milhões de casos de covid e 29 mil mortes, enquanto que Uganda registrou 128 mil casos e 3 mil mortes, até o dia 9 de dezembro.

    2. Respostas eficazes de saúde pública de governos

    Pule Podcast e continue lendo
    O primeiro caso de covid na África foi confirmado no Egito, em 14 de fevereiro de 2020. Àquele altura, havia muito receio de que o novo vírus pudesse levar os sistemas de saúde do continente ao colapso.

    Entretanto, os governos africanos, que já assistiam o caos que se instalava em países da Europa com a propagação do vírus, adotaram respostas rápidas de saúde pública tais como, medidas de distanciamento social e obrigação de usar máscaras.

    De acordo com um índice da Universidade de Oxford, na Inglaterra, sobre as respostas dos governos à pandemia, países africanos como Marrocos, Tunísia e Ruanda estiveram entre os primeiros do mundo a estabelecer medidas mais duras como lockdowns e controle rígido de viagens.

    Mas os governos não agiram sozinhos. A população, em sua grande maioria, colaborou bastante.

    Uma pesquisa feita em 18 países africanos em agosto de 2020 apontou um grande apoio das pessoas às medidas de segurança. Segundo esse estudo, 85% dos entrevistados disseram que estavam usando máscara.

    Mulher sendo vacinada

    CRÉDITO,GETTY IMAGES

    Legenda da foto,

    O presidente da África do Sul pediu a todos que tomem vacina contra a covid

    3. Subnotificação de mortes por covid

    Alguns especialistas sugerem que a subnotificação do número de mortes por covid pode pintar um quadro mais positivo do que a realidade. Ou seja, mais pessoas podem ter morrido de covid no continente sem o devido registro por causa da baixa capacidade de testagem em alguns países.

    "A coleta insuficiente de dados pode significar que não sabemos realmente a incidência e prevalência de covid-19. Embora variem na África Subsaariana, os níveis de teste têm sido baixos em comparação com outras áreas do mundo", dizem os especialistas Alex Ezeh, da Drexel University, Michael Silverman e Saverio Stranges, ambos da Western University, num artigo acadêmico publicado no dia 17 de agosto.

    Mas Jeremias Agostinho, especialista em saúde pública de Angola, contesta essa teoria.

    O médico disse à BBC News Brasil que "se houvesse um número elevado de mortes por covid não identificados, nós teríamos um aumento na mortalidade por outras doenças ou por doenças desconhecidas. Mas neste momento este fenômeno não ocorre".

    "Independentemente de nós fazermos poucos testes, não temos uma alteração significativa na taxa total de mortalidade a nível do continente", acrescentou o especialista.

    4. Falta de casas de repouso

    As casas de repouso foram tidas como um grande foco de contágio da covid-19. No Reino Unido e outros países da Europa, a doença se espalhou rapidamente nessas instituições, matando milhares de idosos.

    Em boa parte dos países na África, o número de idosos que vivem em clínicas ou casas de repouso é pequeno, o que contrasta com a realidade em muitos países chamados desenvolvidos.

    Anne Soy, correspondente sênior da BBC África, explicou à BBC News Brasil que por razões culturais, "quando as pessoas se aposentam em muitas cidades africanas elas voltam para as zonas rurais."

    "É quase um tabu mandar embora os seus velhos, porque as pessoas vão pensar assim, 'eles cuidaram de você quando você era mais novo, e você agora está jogando eles fora", ela complementa.

    Na visão de Soy, este pode ter sido um elemento que contribuiu para o baixo número de mortes do continente.

    "A configuração nas zonas rurais é tal que as casas ficam distantes umas das outras. Então, eles já estão socialmente distanciados. Você não pode comparar isso com pessoas que moram em um apartamento que provavelmente tem centenas de famílias."

    Durante a primeira onda da pandemia, por exemplo, cerca de 81% das mortes no Canadá ocorreram em casas de repouso para idosos.

    Coronavírus

    CRÉDITO,GETTY IMAGES

    Legenda da foto,

    Após Alfa, Beta, Gama e Delta, ômicron entrou na lista das variantes de preocupação do coronavírus mantida pela OMS

    5. O clima favorável

    Um estudo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, encontrou uma correlação entre temperatura, umidade e latitude e a disseminação da covid-19.

    Em entrevista à BBC África em outubro de 2020, Mohammad Sajadi, o líder da pesquisa, disse: "Nós observamos a propagação precoce [do vírus] em 50 cidades ao redor do mundo. O vírus teve mais facilidade de se espalhar em temperaturas e umidade mais baixas".

    Sajadi acrescentou que: "Não é que o coronavírus não se espalhe em outras condições — ele apenas se espalha melhor quando a temperatura e a umidade caem".

    No entanto, alguns casos de alta mortalidade em países quentes, como o Brasil, podem desafiar essa teoria. Ou será que teria havido ainda mais mortes no Brasil, se o clima fosse mais frio e menos úmido?

    Não há resposta para essa pergunta — o fato é que é preciso mais estudos para entender melhor a dinâmica do contágio.

    Comentários

    Postagens mais visitadas deste blog

    OBSERVATÓRIO - Imigrantes africanos protestam por direitos humanos em Israel - Do G1, com agências inernacionais

    Os imigrantes pedem que o governo conceda a eles o status de refugiado. Enquanto isso, são abrigados em centro penitenciários.                           Munidos de velas e cartazes, imigrantes africanos em Israel foram às ruas da capital Tel Aviv, neste sábado (28), para protestar contra ações do governo que os têm confinado em centros penitenciários. (Foto: Oren Ziv/France Presse)   Imigrantes africanos em Israel foram às ruas da capital Tel Aviv, neste sábado (28), para protestar contra ações do governo que os têm confinado em centros penitenciários e para terem respeitados os direitos humanos. Em um protesto pacíficio, milhares seguram velas e ostentaram cartazes pedidno liberdade. Cerca de 60 mil imigrantes africanos vivem em Israel sem o status de refugiado. Eles são abrigados em centros de detenção, devido a uma lei que passou no parlamento...

    Doutrina Monroe - Por: Marcos Benedito - 03/01/2026

    Onde a Doutrina Monroe foi usada como instrumento de dominação A chamada Doutrina Monroe não surgiu por acaso, nem por boa vontade. Ela foi criada em 1823, quando os Estados Unidos ainda estavam se afirmando como nação, mas já pensavam como império em formação. O contexto era claro: países da América Latina estavam se libertando das coroas europeias, especialmente da Espanha e de Portugal, e as grandes potências do Velho Mundo observavam com interesse a possibilidade de retomar influência sobre essas regiões. Foi nesse cenário que os EUA se apresentaram como “protetores” do continente. O discurso oficial dizia que a Europa não deveria mais interferir nas Américas. Soava bonito, até necessário. Mas o objetivo real era outro: afastar os europeus para assumir o controle do território, da política e da economia do continente. Nascia ali a famosa frase: “A América para os americanos.” Só que nunca ficou claro quem eram esses “americanos”. Na prática, a doutrina estabeleceu que nenhum país d...

    Madame Satã, o transformista visto como herói da contracultura e vilão pelo governo Bolsonaro - Daniel Salomão Roque De São Paulo para a BBC News Brasil 26 junho 2021

      bibliOTECA NACIONAL Legenda da foto, Manchete sobre a participação de João Francisco numa fuga penitenciária em 1955. O transformista nutria grande admiração por Carmen Miranda e procurava imitá-la sempre que possível Ao abaixar a cabeça, João Francisco dos Santos, então com 28 anos, viu duas poças se avolumarem no chão de seu quarto — de um lado, as gotas de sangue pingando através de um rasgo em sua sobrancelha direita; do outro, as lágrimas que lhe escorriam pelos cantos dos olhos. Não demorou muito para que ambos os fluidos se misturassem numa poça maior. "A minha pessoa estava feliz demais naquela noite. Eu devia ter desconfiado", recordaria quatro décadas depois, em depoimento ao escritor Sylvan Paezzo (1938-2000). "Já tinha apanhado tanto da danada da vida, que pensei ter chegado a minha boa hora. Aquela demagogia de que não há mal que sempre dure e que depois da tempestade vem a bonança." Corria o ano de 1928, e João Francisco acreditava ter realizado o so...