Pular para o conteúdo principal

Eleições na Bolívia: quem é Luis Arce, ex-ministro de Evo Morales apontado por projeções como novo presidente do país 19 outubro 2020 - POR: BBC BRASIL

 

arceArce é visto como pupilo de Evo Morales

O homem considerado "pupilo" de Evo Morales e que teve o ex-presidente como seu coordenador de campanha pode estar se tornando o novo mandatário da Bolívia, de acordo com os resultados iniciais da apuração dos votos da eleição de domingo (19/10).

De acordo com o resultado preliminar, Luis Arce Catacora, que é ex-ministro da Economia, teria obtido ampla vantagem, de mais de 52% dos votos contra 31% de seu principal adversário, o ex-presidente Carlos Mesa.

"Todos nós bolivianos demos passos importantes, recuperamos a democracia e a esperança", disse Arce, após ficar sabendo das primeiras projeções de resultados.

"De nossa parte, nosso compromisso, (é o) de trabalhar, de cumprir nosso programa, e vamos governar para todos os bolivianos."

Uma das figuras-chave durante anos nos diferentes governos de Evo Morales, Arce é visto como o arquiteto das reformas que levaram à decolagem econômica da Bolívia durante os anos do Movimento pelo Socialismo (MAS).

Fim do Talvez também te interesse

Na gestão do MAS, o país sul-americano conseguiu não só reduzir a inflação e viver um boom econômico, mas também reduziu significativamente a pobreza.

A caminho do governo

Nascido em 1963 em La Paz em uma família de professores, Arce estudou Economia na Bolívia, fez mestrado no Reino Unido e no retorno ao seu país começou a trabalhar como funcionário público no Banco Central da Bolívia (BCP), onde ocupou diferentes cargos.

Ele também se dedicou ao ensino e ministrou diversos cursos em universidades, incluindo Harvard, Columbia e a Universidade de Buenos Aires.

Em diferentes ocasiões, Arce destacou que, ao longo desse período, entre os anos 1980 e 1990, manteve suas ideias socialistas, apesar do consenso neoliberal prevalecente na política e na academia da Bolívia.

Por isso, o acadêmico fez parte de grupos de análise política, com diversas publicações em revistas especializadas.

Embora se declarasse de esquerda na época, ele não era considerado um marxista ortodoxo ou um militante comunista tradicional. Durante esses anos, ele foi dando cada vez mais importância ao estudo da macroeconomia.

Em seguida, ele colocaria essa experiência e essas ideias no programa de governo do partido, que, em 2005, colocou um plantador de coca no cargo mais importante do país.

Governo Morales

Apos à ascensão de Evo Morales ao poder, Arce foi nomeado em 2006 para chefiar o ministério da Fazenda, que foi rebatizado três anos depois de ministério da Economia e Finanças Públicas.

À frente do ministério, Arce promoveu medidas de incentivo ao mercado interno, estabilidade cambial e promoção de políticas de industrialização de recursos naturais.

Em um governo que contava com muitos políticos, o economista se preocupava com a estabilidade macroeconômica, o déficit fiscal e expansão das reservas internacionais. Já seus colegas de gabinete se dedicavam à crise política que Evo Morales enfrentou durante seus primeiros anos no cargo.

Mas talvez uma de suas medidas mais importantes e polêmicas tenha sido a série de "nacionalizações", principalmente no setor de hidrocarbonetos, cuja recuperação Arce considerou como um dos pilares da economia boliviana em todos esses anos.

Arce Catacora con una mujer boliviana
Legenda da foto,

Arce esteve com Evo Morales durante a maior parte de seu governo

O aumento das reservas internacionais, a expansão da classe média e, sobretudo, o fato de o país estar entre os que mais cresciam na região, levaram o governo Morales a promover a ideia de "milagre econômico boliviano".

Essa narrativa foi rejeitada pela oposição da época e agora pelo governo de transição de Jeanine Áñez, que diz duvidar que a pobreza tenha realmente sido reduzida. A oposição afirma que Arce desperdiçou o momento em que houve maiores entradas de recursos na economia boliviana, quando os preços dos hidrocarbonetos e minerais estavam em alta.

Outro questionamento é que o governo anterior não cumpriu a promessa de diversificar a economia e industrializar os recursos naturais, mas depois de quase 14 anos deixou o país igualmente dependente de matérias-primas exportáveis.

A caminho da Presidência

Depois de sofrer um câncer renal, ele renunciou ao cargo de ministro em 2017 e, após uma longa recuperação no Brasil, voltou à Bolívia para retomar seu cargo, até a renúncia de Evo Morales, no ano passado.

Em janeiro, o MAS o nomeou como seu candidato presidencial (e o ex-chanceler David Choquehuanca como companheiro de chapa) para as eleições que estavam inicialmente programadas para maio e que depois foram adiadas para outubro devido à pandemia de coronavírus.

Sua indicação provocou questionamentos até dentro do partido, pelo fato de Arce ser oriundo da classe média urbana e não das organizações sindicais e camponesas que compõem grande parte das bases do MAS.

Na hora de anunciar o candidato, Evo Morales — que vive na Argentina desde a crise que forçou sua renúncia — destacou que Arce era o homem capaz de "garantir a economia nacional".

O ex-presidente lembrou das conquistas que atribui à gestão do ex-ministro, como o crescimento econômico, para embasar a decisão tomada.

Bolivia
Legenda da foto,

Arce é visto como o 'cérebro' por trás do desenvolvimento econômico que a Bolívia viveu durante o governo Morales

Como plano de governo, Arce tem defendido as empresas estatais, os recursos naturais do país, e diz querer voltar às taxas de crescimento que a Bolívia tinha quando era ministro da Economia.

Porém, seu perfil é bastante técnico e ele fez sua carreira à sombra de personagens bem mais carismáticos como Morales e o ex-vice-presidente Álvaro García Linera. Isso, segundo seus críticos, pode pesar contra ele.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doutrina Monroe - Por: Marcos Benedito - 03/01/2026

Onde a Doutrina Monroe foi usada como instrumento de dominação A chamada Doutrina Monroe não surgiu por acaso, nem por boa vontade. Ela foi criada em 1823, quando os Estados Unidos ainda estavam se afirmando como nação, mas já pensavam como império em formação. O contexto era claro: países da América Latina estavam se libertando das coroas europeias, especialmente da Espanha e de Portugal, e as grandes potências do Velho Mundo observavam com interesse a possibilidade de retomar influência sobre essas regiões. Foi nesse cenário que os EUA se apresentaram como “protetores” do continente. O discurso oficial dizia que a Europa não deveria mais interferir nas Américas. Soava bonito, até necessário. Mas o objetivo real era outro: afastar os europeus para assumir o controle do território, da política e da economia do continente. Nascia ali a famosa frase: “A América para os americanos.” Só que nunca ficou claro quem eram esses “americanos”. Na prática, a doutrina estabeleceu que nenhum país d...

Madame Satã, o transformista visto como herói da contracultura e vilão pelo governo Bolsonaro - Daniel Salomão Roque De São Paulo para a BBC News Brasil 26 junho 2021

  bibliOTECA NACIONAL Legenda da foto, Manchete sobre a participação de João Francisco numa fuga penitenciária em 1955. O transformista nutria grande admiração por Carmen Miranda e procurava imitá-la sempre que possível Ao abaixar a cabeça, João Francisco dos Santos, então com 28 anos, viu duas poças se avolumarem no chão de seu quarto — de um lado, as gotas de sangue pingando através de um rasgo em sua sobrancelha direita; do outro, as lágrimas que lhe escorriam pelos cantos dos olhos. Não demorou muito para que ambos os fluidos se misturassem numa poça maior. "A minha pessoa estava feliz demais naquela noite. Eu devia ter desconfiado", recordaria quatro décadas depois, em depoimento ao escritor Sylvan Paezzo (1938-2000). "Já tinha apanhado tanto da danada da vida, que pensei ter chegado a minha boa hora. Aquela demagogia de que não há mal que sempre dure e que depois da tempestade vem a bonança." Corria o ano de 1928, e João Francisco acreditava ter realizado o so...

Roberto Carlos - Disco Louco Por Você 1961 - Completo) - Antonio Alves (Tony )

  Depois de muitos pedidos estou disponibilizando para todos vocês o Disco completo mais raro de Roberto Carlos de 1961 com excelente áudio e com duas faixas bônus "Cazone Per Te" e L' ultima Cosa " versão em Stereo de 1968 . Sobre esse Disco : Dois anos depois do lançamento do compacto simples "João e Maria/Fora do Tom" em 1959, Roberto Carlos estreava "Louco por Você", primeiro LP do cantor. O disco expressa a fase inicial da carreira de Roberto, fã da bossa nova e da música romântica. Boa parte das canções do álbum tem composição de Carlos Imperial. Sem sucesso comercial , dizem que vendeu apenas 512 copias ,Louco por Você" acabou renegado por Roberto até hoje e se tornou o segundo LP mais caro no Brasil. Lista das músicas 01- Não é Por Mim-Autores: (Carlos Imperial-Fernando Cesar) 02- Olhando Estrelas (Look For a Star)-(Look for a star) De Mark Antony(vs. Paulo Rogério) Bolero 03- Só Você-Autores: Edson Ribeiro e Renato Corte Real...