Pular para o conteúdo principal

Racismo e pandemia: 'São Paulo vive o maior apartheid social do país', alerta historiador - POR: SPUTNIK BRASIL


A Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michele Bachelet, alertou para o impacto devastador da COVID-19 sobre as minorias étnicas, principalmente em países como Brasil, França, Reino Unido e EUA. Sobre o assunto, a Sputnik Brasil ouviu o pesquisador Adalmir Leonídio, que aponta que a população negra no Brasil corre sérios riscos na pandemia.

Os dados publicados na terça-feira (2) pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) citam o quadro do estado de São Paulo com preocupação, explicitando que a população negra tem 62% mais risco de morrer em meio à pandemia do que as pessoas brancas. São Paulo é o estado mais afetado pela pandemia no Brasil, com 123.483 casos confirmados e 8.276 mortes.

Para Adalmir Leonídio, professor de História do Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Observatório de Criminalização da Pobreza e dos Movimentos Sociais, o quadro pode indicar um "mecanismo de controle populacional".

"Podemos estar diante aí, ainda que isso não seja intencional, de um perverso mecanismo de controle populacional. É o que vejo nesse movimento todo em relação à posição do governo - dos governos, eu diria, no mundo todo praticamente - em relação a essa vulnerabilidade das populações mais desassistidas frente à pandemia", diz Leonídio em entrevista à Sputnik Brasil.

O estudioso ressalta que no Brasil os negros são maioria nos chamados "territórios da pobreza", onde os indicadores de vida são ruins. Entre eles a alimentação, o acesso ao saneamento básico e a habitação, condições que ampliam a vulnerabilidade dessas populações diante da pandemia.

"Tudo isso, obviamente, fica óbvio, fragiliza bastante a saúde dessas pessoas, tornando-as assim mais vulneráveis a doenças em geral, em particular, nesse caso agora, à COVID-19", afirma.
Um casal chora enquanto membros do projeto Fala Comigo! rezam e tocam música gospel enquanto oferecem máscaras e comida na área conhecida como Cracolância, região central de São Paulo, em meio à pandemia da COVID-19.
© REUTERS / RICARDO MORAES
Um casal chora enquanto membros do projeto "Fala Comigo!" rezam e tocam música gospel enquanto oferecem máscaras e comida na área conhecida como Cracolância, região central de São Paulo, em meio à pandemia da COVID-19.

O pesquisador também ressalta que as populações desses territórios têm menor acesso aos serviços de saúde e também à informação, tanto Internet como outros meios mais tradicionais. Além de todas essas questões, o trabalho é também um fator de risco nas populações mais pobres, de maioria negra, conforme avalia o pesquisador.

"Eles [as populações pobres] em geral se envolvem com os serviços de maior risco, o que os torna ainda mais vulneráveis nessa situação de pandemia", aponta Leonídio.

O abismo social em São Paulo

Para o historiador, dado o quadro de pobreza que predomina entre a população negra no Brasil, os apontamentos do Alto-Comissariado da ONU são precisos. O pesquisador acrescenta, porém, que é necessário evidenciar que a situação de São Paulo não é melhor do que a do resto do país em relação à pobreza.

"São Paulo vive o maior apartheid social do país e só não diria que é um dos maiores apartheids sociais do mundo porque não conheço as outras realidades do mundo, como a Índia, por exemplo. Mas não tenho a menor dúvida de que no país, São Paulo tem o maior apartheid social, onde as diferenças, o abismo social entre pobres e ricos é enorme", ressalta o pesquisador da USP.
Pessoas em situação de pobreza extrema em comunidade no extremo da zona norte de São Paulo em meio à pandemia da COVID-19, em 21 de maio de 2020.
© FOLHAPRESS / ROBERTO CASIMIRO
Pessoas em situação de pobreza extrema em comunidade no extremo da zona norte de São Paulo em meio à pandemia da COVID-19, em 21 de maio de 2020.

Para o historiador, o Brasil tem, em geral, uma das situações mais difíceis mundialmente para as populações mais pobres, de maioria negra.

"O Brasil, se não é o pior, seria difícil dizer assim, mas está entre os que têm a política mais desfavorável, vamos dizer assim, a essas populações mais vulneráveis no que se refere ao enfrentamento dessa pandemia", conclui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doutrina Monroe - Por: Marcos Benedito - 03/01/2026

Onde a Doutrina Monroe foi usada como instrumento de dominação A chamada Doutrina Monroe não surgiu por acaso, nem por boa vontade. Ela foi criada em 1823, quando os Estados Unidos ainda estavam se afirmando como nação, mas já pensavam como império em formação. O contexto era claro: países da América Latina estavam se libertando das coroas europeias, especialmente da Espanha e de Portugal, e as grandes potências do Velho Mundo observavam com interesse a possibilidade de retomar influência sobre essas regiões. Foi nesse cenário que os EUA se apresentaram como “protetores” do continente. O discurso oficial dizia que a Europa não deveria mais interferir nas Américas. Soava bonito, até necessário. Mas o objetivo real era outro: afastar os europeus para assumir o controle do território, da política e da economia do continente. Nascia ali a famosa frase: “A América para os americanos.” Só que nunca ficou claro quem eram esses “americanos”. Na prática, a doutrina estabeleceu que nenhum país d...

Madame Satã, o transformista visto como herói da contracultura e vilão pelo governo Bolsonaro - Daniel Salomão Roque De São Paulo para a BBC News Brasil 26 junho 2021

  bibliOTECA NACIONAL Legenda da foto, Manchete sobre a participação de João Francisco numa fuga penitenciária em 1955. O transformista nutria grande admiração por Carmen Miranda e procurava imitá-la sempre que possível Ao abaixar a cabeça, João Francisco dos Santos, então com 28 anos, viu duas poças se avolumarem no chão de seu quarto — de um lado, as gotas de sangue pingando através de um rasgo em sua sobrancelha direita; do outro, as lágrimas que lhe escorriam pelos cantos dos olhos. Não demorou muito para que ambos os fluidos se misturassem numa poça maior. "A minha pessoa estava feliz demais naquela noite. Eu devia ter desconfiado", recordaria quatro décadas depois, em depoimento ao escritor Sylvan Paezzo (1938-2000). "Já tinha apanhado tanto da danada da vida, que pensei ter chegado a minha boa hora. Aquela demagogia de que não há mal que sempre dure e que depois da tempestade vem a bonança." Corria o ano de 1928, e João Francisco acreditava ter realizado o so...

Roberto Carlos - Disco Louco Por Você 1961 - Completo) - Antonio Alves (Tony )

  Depois de muitos pedidos estou disponibilizando para todos vocês o Disco completo mais raro de Roberto Carlos de 1961 com excelente áudio e com duas faixas bônus "Cazone Per Te" e L' ultima Cosa " versão em Stereo de 1968 . Sobre esse Disco : Dois anos depois do lançamento do compacto simples "João e Maria/Fora do Tom" em 1959, Roberto Carlos estreava "Louco por Você", primeiro LP do cantor. O disco expressa a fase inicial da carreira de Roberto, fã da bossa nova e da música romântica. Boa parte das canções do álbum tem composição de Carlos Imperial. Sem sucesso comercial , dizem que vendeu apenas 512 copias ,Louco por Você" acabou renegado por Roberto até hoje e se tornou o segundo LP mais caro no Brasil. Lista das músicas 01- Não é Por Mim-Autores: (Carlos Imperial-Fernando Cesar) 02- Olhando Estrelas (Look For a Star)-(Look for a star) De Mark Antony(vs. Paulo Rogério) Bolero 03- Só Você-Autores: Edson Ribeiro e Renato Corte Real...