Pular para o conteúdo principal

Queermuseu, a exposição censurada em Porto Alegre, faz vaquinha na internet para reabrir no Rio - Tatiana Farah Repórter do BuzzFeed News, Brasil - publicado 2 de Fevereiro de 2018

Em dois dias, crowdfunding arrecadou R$ 66 mil. O objetivo é juntar R$ 690 mil até 29 de março e lançar o evento em maio, no Parque Lage.Em dois dias, a exposição "Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" recebeu R$ 66 mil de 348 doadores para voltar a ser exibida, desta vez no Rio de Janeiro.

A Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage e o curador da exposição, Gaudêncio Fidélis, lançaram na quarta-feira uma vaquinha online para arrecadar R$ 690 mil até o dia 29 de março e relançar a Queermuseu no Parque Lage. Na manhã desta sexta (2), o crowdfunding chegava a 10% do total almejado.
Em setembro passado, a exposição foi censurada em Porto Alegre pelo Santander Cultural, que a exibia, depois de receber críticas de movimentos de direita, como o MBL (Movimento Brasil Livre), que acusaram as obras de trazer imagens que incentivariam práticas como pedofilia e zoofilia. Instado a investigar, o Ministério Público isentou as obras, mas o Santander manteve a suspensão da exposição.
Fernando Baril: Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, 1996
F. Zago/Studio Z | Cortesia do artista
Fernando Baril: Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, 1996
O curador Fidélis foi convocado a depor na CPI dos Maus Tratos à Infância e teve de explicar o conteúdo das obras em Brasília, e disse ao presidente da CPI, senador Magno Malta (PR-ES), que algumas obras atribuídas à Queermuseu em posts nas redes sociais nem sequer faziam parte do acervo da exposição, na verdade.
A Queermuseu conta com 263 obras de 85 artistas, datadas do século 20 até os dias atuais. No final do ano passado, Fidélis foi convidado a levar a exposição para o MAR (Museu de Arte do Rio). Constrangido, o museu desconvidou o curador porque o prefeito Marcelo Crivella (PSC) proibiu a exposição. Com ironia, Crivella disse que a exposição não iria para o MAR, e sim para o "fundo do mar".
"É um sucesso [o crowdfunding], mas só vamos comemorar quando batermos a meta, né?", disse o diretor do Parque Lage, Fabio Szwarcwald, para quem o movimento de apoio à reabertura da exposição "mostra que a gente não pode aceitar a censura que vem ocorrendo, de forma agressiva e autoritária".
Além da exposição, prevista para maio, o Parque Lage planeja uma série de debates sobre censura, artes a e minorias. Os eventos são de acesso gratuito e a plataforma de crowdfunding é a benfeitoria.com.
Adriana Varejão: Cena de interior II, 1994
Foto: Eduardo Ortega / Acervo Atelier Adriana Varejão / Cortesia Atelier Adriana Varejão
Adriana Varejão: Cena de interior II, 1994
Gaudêncio Fidélis disse que sete artistas prepararam cartazes para recompensar os doadores que contribuírem com valores acima de R$ 400. Mas as doações podem ser feitas a partir de R$ 20. Todos os doadores terão o nome incluído no catálogo.
"O queer é aquilo que não é normativo, que não se enquadro no que é vigente. Isso transcende a questão de identidade de gênero", afirmou Fidélis.
Para ele, a exposição Queermuseu, assim como a expressão queer, também se ampliou, não se tratando apenas de arte. "Não podemos conceber a censura como uma questão dada. A exposição no Parque Lage, por meio de um crowdfunding, é uma espécie de reparação pelo que ocorreu", disse o curador.
Tatiana Farah é Repórter do BuzzFeed e trabalha em São Paulo. Entre em contato com ela pelo email tatiana.farah@buzzfeed.com.
Contact Tatiana Farah at Tatiana.Farah@buzzfeed.com.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Doutrina Monroe - Por: Marcos Benedito - 03/01/2026

Onde a Doutrina Monroe foi usada como instrumento de dominação A chamada Doutrina Monroe não surgiu por acaso, nem por boa vontade. Ela foi criada em 1823, quando os Estados Unidos ainda estavam se afirmando como nação, mas já pensavam como império em formação. O contexto era claro: países da América Latina estavam se libertando das coroas europeias, especialmente da Espanha e de Portugal, e as grandes potências do Velho Mundo observavam com interesse a possibilidade de retomar influência sobre essas regiões. Foi nesse cenário que os EUA se apresentaram como “protetores” do continente. O discurso oficial dizia que a Europa não deveria mais interferir nas Américas. Soava bonito, até necessário. Mas o objetivo real era outro: afastar os europeus para assumir o controle do território, da política e da economia do continente. Nascia ali a famosa frase: “A América para os americanos.” Só que nunca ficou claro quem eram esses “americanos”. Na prática, a doutrina estabeleceu que nenhum país d...

ATITUDE BRASIL: Um olhar sobre o grupo depois de mais de 20 anos - Por: Marcos Benedito

Ao tomar a iniciativa de recuperar e registrar o material do Atitude Brasil na plataforma do YouTube, comecei também a observar novos detalhes que, na época em que tudo foi produzido, talvez não tivessem recebido a devida atenção. Mais de 20 anos depois, ao rever essas gravações, algumas características do grupo tornam-se muito mais evidentes. E uma das primeiras coisas que chama a atenção é justamente aquilo que talvez seja uma das marcas mais importantes do Atitude Brasil: a espontaneidade . A espontaneidade como marca Nas gravações é possível perceber uma alegria natural. Não parece haver uma tentativa artificial de produzir uma determinada reação ou de representar uma coreografia previamente ensaiada. A alegria simplesmente acontece. O grupo demonstra espontaneamente a satisfação de tocar, cantar e fazer música. Isso é particularmente significativo quando comparamos com algumas performances musicais em que a movimentação, os gestos e as expressões parecem excessivamente programados...

OBSERVATÓRIO - Imigrantes africanos protestam por direitos humanos em Israel - Do G1, com agências inernacionais

Os imigrantes pedem que o governo conceda a eles o status de refugiado. Enquanto isso, são abrigados em centro penitenciários.                           Munidos de velas e cartazes, imigrantes africanos em Israel foram às ruas da capital Tel Aviv, neste sábado (28), para protestar contra ações do governo que os têm confinado em centros penitenciários. (Foto: Oren Ziv/France Presse)   Imigrantes africanos em Israel foram às ruas da capital Tel Aviv, neste sábado (28), para protestar contra ações do governo que os têm confinado em centros penitenciários e para terem respeitados os direitos humanos. Em um protesto pacíficio, milhares seguram velas e ostentaram cartazes pedidno liberdade. Cerca de 60 mil imigrantes africanos vivem em Israel sem o status de refugiado. Eles são abrigados em centros de detenção, devido a uma lei que passou no parlamento...