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OBSERVANDO A PAUTA - Veja quem disputa a presidência do PT no momento da maior crise do partido - Bruno Lupion - 04 Abr 2017

Gleisi Hoffmann tem o apoio do ex-presidente Lula e significa a continuidade do grupo que comanda a legenda, enquanto Lindbergh Farias representa tendências mais à esquerda


Foto: Beto Barata/Agência Senado - 8/3/2016
Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann no plenário do Senado, em 2016
Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann no plenário do Senado, em 2016
 O PT escolherá, em junho, seu novo presidente nacional, naquele que pode ser considerado o momento mais delicado de sua história, marcado por denúncias de corrupção e derrotas nas urnas.
Fundado em 1980, o partido se desenvolveu próximo das bases eleitorais e com seus principais quadros ocupando cargos da estrutura partidária. Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito e passou a governar o país, em 2003, parte desses quadros foi deslocada para a administração federal, tendência que se manteve até o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.
Agora que o PT está na oposição ao governo federal e perdeu metade das suas prefeituras nas eleições municipais de 2016, o movimento se inverteu. A estrutura partidária voltou a ser uma das principais plataformas de atuação dos petistas.
Nesse contexto, o partido realizará um congresso nacional em junho para definir suas linhas de atuação e seu novo presidente. Na segunda-feira (3), a principal corrente interna da legenda, a CNB (Construindo um Novo Brasil), à qual pertence Lula, anunciou que sua candidata para comandar a sigla é a senadora Gleisi Hoffmann, do Paraná.
O outro nome de peso na disputa é o também senador Lindbergh Farias, do Rio de Janeiro. Ele representa um movimento chamado Muda PT, que reúne diversas correntes do partido que fazem oposição à direção do PT.
As correntes são estruturas próprias dentro da legenda que elaboram documentos sobre a conjuntura política e disputam eleições internas, repartindo o poder a partir do número de filiados que as integram.
Lula deseja uma candidatura única no PT, para evitar disputas pelo comando do partido, e a escolha de Gleisi se insere nesse objetivo. Ele tentará convencer Lindbergh a desistir da sua candidatura, mas o senador mantém a disposição por ora.
Em comum, Gleisi e Lindbergh defendem uma posição de enfrentamento permanente contra o PMDB e o Palácio do Planalto. Vão na direção contrária da sugerida pelo senador Humberto Costa (PE), da CNB, que propõe que o PT adote uma posição “mais aberta, mais negociadora” com o governo.
De diferente, Gleisi apoiou o ajuste fiscal implementado pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2015, quando Joaquim Levy era ministro da Fazenda. Lindbergh se opôs ao ajuste, e por esse motivo tem respaldo nas correntes mais à esquerda do partido.
Entenda o que cada uma dessas candidaturas representa:

Gleisi Hoffmann

Quem é
Senadora pelo Paraná. Começou na política como presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas. Em 2002, foi nomeada diretora financeira de Itaipu no governo Lula, em 2008 foi eleita presidente do PT do Paraná e em 2010 elegeu-se senadora.
O que representa
A manutenção da corrente majoritária do partido, a CNB, no comando da legenda. Ao mesmo tempo, ela seria a primeira mulher a presidir o partido e pertence a uma geração mais jovem — tem 51 anos, contra 73 anos do atual presidente do PT, Rui Falcão —, o que acrescenta um simbolismo de renovação.
Gleisi fez parte da linha de frente do combate ao impeachment de Dilma e faz um enfrentamento permanente ao governo Temer. Foi ministra da Casa Civil de Dilma e apoiou o ajuste fiscal implementado pela ex-presidente em 2015, sob o então ministro da Fazenda Joaquim Levy.

Pontos fortes

  • Tem o apoio de Lula e da corrente majoritária do partido, o que praticamente garante sua vitória caso haja mais de um candidato à presidência da legenda.
  • Seria a primeira mulher a presidir o PT e pertence a uma geração mais jovem do que o atual presidente da sigla.
  • Tem o apoio dos petistas que defendem uma oposição permanente ao governo Temer, sem abertura para o diálogo com o atual governo.
Pontos fracos
  • Desde setembro de 2016, é ré no Supremo Tribunal Federal em uma ação penal no âmbito da Operação Lava Jato. Ao lado de seu marido, o também petista Paulo Bernardo, ex-ministro do Planejamento e das Comunicações, é acusada de ter recebido R$ 1 milhão de verbas desviadas da Petrobras, o que ela nega.
  • Seu marido, Paulo Bernardo, ficou detido em prisão preventiva por uma semana em junho. Ele é acusado de ter se beneficiado de um esquema de corrupção no Ministério do Planejamento que teria desviado R$ 100 milhões de um contrato com uma empresa de tecnologia. Segundo a Polícia Federal, Paulo Bernardo teria recebido R$ 7 milhões do montante, o que ele nega.

Lindbergh Farias

Quem é
Senador pelo Rio de Janeiro. Foi presidente da União Nacional dos Estudantes e liderou o movimento de caras-pintadas contra o ex-presidente Fernando Collor. Filiou-se ao PT em 2001, partido pelo qual se elegeu deputado federal, prefeito de Nova Iguaçu e senador.
O que representa
É apoiado pelas alas de oposição à direção do PT, mais à esquerda, como o movimento Muda PT, que congrega as tendências Mensagem ao Partido e Articulação de Esquerda, e o Optei, que reúne ex-integrantes da CNB insatisfeitos com a corrente majoritária.
Ficou na linha de frente contra o impeachment de Dilma. Ao contrário de Gleisi, foi crítico ao ajuste fiscal implementado pela ex-presidente em 2015, quando Joaquim Levy era ministro da Fazenda, o que o credencia nas alas mais à esquerda do partido. Como Gleisi, é de uma geração mais jovem, e tem 47 anos.
Pontos fortes
  • É o candidato consolidado das tendências de oposição no PT.
  • Tem o apoio de petistas que criticam o ajuste fiscal implementado por Dilma em 2015 e têm uma visão mais crítica do governo da ex-presidente.
  • Foi alvo de inquérito na Lava Jato, mas a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal não encontraram indícios contra ele e solicitaram o arquivamento. Em fevereiro de 2017, o ministro Edson Fachin determinou que o inquérito fosse arquivado.
Pontos fracos
  • As correntes que o apoiam ganharam espaço no PT nos últimos anos, mas ainda não comprovaram ter votos o suficiente para comandar a legenda
  • Pode vir a desistir da candidatura antes do dia da escolha do novo presidente. Essa possibilidade é discutida no partido.
ESTAVA ERRADO: A versão inicial deste texto afirmava que Gleisi Hoffmann é ré no Supremo desde setembro de 2017, quando na verdade é desde setembro de 2016. A informação foi corrigida às 17h40 de 5 de abril de 2017.

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