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OBSERVATÓRIO - Mentiroso, devasso e anárquico, Carlos Imperial incomodou o regime militar - Guilherme Bryan Colaboração para o UOL, em São Paulo


"O Imperial era um bom mentiroso e usava uma base de verdade para construir a mentira em cima". Assim o diretor Ricardo Calil descreve o personagem central de seu documentário "Eu Sou Carlos Imperial", em cartaz nos cinemas. Descobridor de artistas como Roberto e Erasmo Carlos, Elis Regina, Toni Tornado, Tim Maia eWilson Simonal, entre outros, Imperial teve uma vida marcada por aventuras e polêmicas. Muitas delas foram cercadas por mentiras que ele mesmo contava e que criaram em torno dele a imagem de um devasso, que muitas vezes incomodou o regime militar.
Para Calil, Imperial era inclassificável. "Ele tendia a ser visto como um cara de direita pela proximidade com o rock and roll, mas, ao mesmo tempo, tinha amizade com pessoas de esquerda, a turma do teatro, Aderbal Freire Filho e Paulo Pontes. Era uma figura anárquica e gostava de provocar todo mundo. Mas ele não foi uma vítima da ditadura, perseguido pela censura e nem torturado. Isso é parte das cascatas dele que sobrevivem até hoje", analisa o diretor sobre o compositor, ator, produtor de teatro, diretor de cinema, apresentador de televisão, produtor artístico, dirigente de futebol, político e até apresentador da apuração do Carnaval do Rio de Janeiro.
Já o biógrafo Denílson Monteiro conta que Imperial esteve muitas vezes na mira da ditadura. "Em vários momentos, ele teve problemas, os quais precisou contornar, indo a Brasília, onde morava o irmão dele, um procurador. Então fazia aquela penitência que todo mundo tinha que fazer quando era censurado. Era comum. Ninguém estava livre. Qualquer coisa você caía na mão de um censor que cismava ou interpretava de uma maneira errada e achava subversivo ou imoral. Mas, felizmente, não foi torturado. Como o Chico Buarque diz, era um cadáver caro demais".O Dops (Departamento de Ordem Política e Social da Polícia) também invadiu o apartamento dele e encontrou lá um macaco empalhado com um capacete do exército --vacilo cometido pela empregada e que foi considerado um deboche com o exército. Mas um pôster do Che Guevara, que também estava ali, foi queimado antes de os agentes chegarem. Em 1975, Imperial foi indiciado na Lei de Segurança Nacional por ter criticado, na coluna que mantinha em um jornal, o juiz que condenou o cantor Wilson Simonal à prisão. Mas bastou um pedido de desculpas para a história ser encerrada.

Reprodução
Cartão de Natal que Carlos Imperial enviou a autoridades do regime militar, em 1968
O ápice foi em 1968, quando enviou, inclusive para alguns desafetos, um cartão de Natal com a imagem dele sentado numa privada e com os dizeres: "Espero que Papai Noel não faça no seu sapato o que eu estou fazendo neste cartão". A brincadeira foi parar nas mãos de um militar, que considerou aquilo um atentado à moral e aos bons costumes, e Imperial foi preso e enviado para Ilha Grande.
A fim de se vangloriar, ele declarou que havia sido torturado e levado um tiro no joelho. Mentira. A marca era de uma cirurgia para retirar varizes e ele havia passado um mês no local tocando violão e passeando no barco do bicheiro Castor de Andrade, com quem até compôs uma música --o episódio é um dos destaques do documentário.
Criador do rock brasileiro

Carlos Imperial teve papel-chave na inserção do rock brasileiro jovem no Brasil, através de pelo menos dois programas que comandou na televisão: "Clube do Rock", na Tupi, e "Os Brotos Comandam", na Continental. "Era um momento muito incipiente do rock nacional e não tinha muito para onde extravasar. Tinha um cara chamado Jair de Taumaturgo com um programa de rádio e TV, mas foi o Imperial quem abriu espaço e ajudou a inventar um pouco uma série de artistas desse momento. Por isso, pode ser chamado de pioneiro do rock brasileiro e da juventude transviada no país, e um dos responsáveis pela explosão da Jovem Guarda anos depois", garante Calil, que frisa o fato de que não sobraram quaisquer imagens desses programas.
Utilizando o mesmo nome de um espaço de música e dança comandado por Imperial em Copacabana, no Rio de Janeiro, o "Clube do Rock" começou como um quadro de 15 minutos do programa de variedades "Meio-dia", de Jaci Campos. Logo ganhou autonomia, tornando-se o espaço para a aparição de jovens talentos que, em pouco tempo, estariam fazendo sucesso pelo país, caso de Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia, Wilson Simonal e Eduardo Araújo. "O formato era ele começando sempre com: 'Alô, amigos! Eu sou Carlos Imperial. Estou aqui para apresentar o meu, o seu, o nosso programa, porque nós gostamos de música jovem. Nós gostamos de rock and roll'. E ele tinha a frase: 'Te torno um ídolo em uma semana'", descreve Denílson Monteiro.

Rei  da Pilantragem

Quando a Jovem Guarda começou a entrar em declínio de popularidade, Imperial passou a se aproximar de artistas que faziam o que ele chamou de samba-jovem, inspirado no rock e no soul norte-americanos. O principal representante era Wilson Simonal e reunia músicos como Cesar Camargo Mariano e Nonato Buzar, que criou o grupo Turma da Pilantragem.
"O Imperial fez a primeira canção, 'O Carango', com Nonato Buzar, e apresentou-a para o Wilson Simonal, que a levou para o Cesar Camargo Mariano, que, com uma genialidade fora do comum com os arranjos dele, começou a fazer uma tapeçaria em cima daquela música simples. Isso foi crescendo. O Simonal se tornou o grande nome desse gênero. O Imperial gostou e fez o disco 'A Turma da Pesada', que tem vocais do pessoal do Trio Esperança e piano do Wagner Tiso. Ele juntou o que tinha de melhor na Odeon e botou para gravar naquele ritmo", conta Monteiro.
"A pilantragem era a ideia de fazer uma espécie de samba rock ou um pop brasileiro mais suingado, que estourou com o Simonal, o qual foi, de certa forma, lançado por Imperial. Só que, assim como na Jovem Guarda, ele lançou artistas que explodiram e começaram uma carreira mais autônoma. Mas a pilantragem durou entre 1967 e 1969. Quando ela começou a decair, ele passou para a história seguinte, pois queria estar sempre na crista onda", reflete Calil.
Para o diretor, a figura de Imperial, já no final da vida, nos anos 1990, é menos aceita do que na década de 1970. Quando morreu, em 4 de novembro de 1992 por complicações pós-cirúrgicas, a importância dele já estava obscurecida. "Ele pagou por ser o cara que estava sempre comprando as brigas. Mas agora estamos num momento em que ele está voltando em vários produtos, mesmo sendo difícil de engolir nos tempos do politicamente correto", avalia Calil.

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