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OBSERVATÓRIO - Antídoto para o declínio do velho jornalismo - Publicado em 15 de setembro de 2015 por Redação de Outras Palavras

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Glenn Greenwald com Edward Snowden, no documentário Citizen Four, de Laura Poitras
Apuração exaustiva e detalhada; texto, imagem e áudio trabalhados com capricho; presença do contraditório; rejeição ao banal. Para vencer a crise, é preciso fazer o contrário da mídia de mercado…
Por Nilson Lage*
Pode ser que me engane – não fiz estudo de mercado e minhas referências não são atuais -, mas acredito que um veículo de mídia com politica editorial às avessas daria certo, ainda – impresso ou eletrônico.
Primeiro, seria preciso recuperar o espanto. O mundo não é lógico nem previsível. Captar a surpresa, notar o diferente, deixar a sensibilidade pautar a pauta. A novidade não está no jornal dos outros, na redação ou no travesseiro. O jornalismo, hoje, tem hierarquia demais, reunião demais, caciques em excesso.
Segundo, permitir que o espectador/leitor se apaixone, não apaixonar-se em lugar dele. Isto significa tomar posição radical em favor da solução dos conflitos por via da razão, da contraposição de argumentos, da valorização dos fatos sobre as versões. Um dos motivos do descrédito dos veículos tem sido a promoção do baixo nível dos conflitos e a omissão do contraditório.
Terceiro, entender que a informação primária circula hoje muito rápido e é consumida logo. Mas cada fato é como uma pedra na água, gera ondas em que se pode surfar, desde que de olho aberto. Não se pode surfar se não se acha a onda.
É preciso acreditar em alguma coisa, ter horizontes definidos. Que tal a nação, o povo, “nós”? Temos necessidade enorme de confiar em nós – e a mídia atual vende desconfiança.
Tratar a informação com respeito e honestidade. Valorizar o detalhe, apurar com exatidão, não deixar furos (a Internet permite conferir dados e nomes, questionar qualquer um em qualquer lugar do mundo). Nada desculpa a imprecisão da informação e o desapreço à integridade do pensamento da fonte.
Exigir esmero na linguagem – texto, imagem, áudio. Jornalismo não é para amadores. Se não se pode oferecer muita coisa, que seja pouca, mas muito boa. Para isso, é preciso valorizar a competência e a cultura dos profissionais. A formação de quadros é parte do negócio.
Fazer isso tudo parecer fácil, simples, direto. Presunção e autorreferência são duas chatices muito comuns na mídia atual.
É bom, creio, deixar os adjetivos para as imagens – é para isso que serve principalmente o fotojornalismo.
Nilson Lage, mestre em Comunicação e doutor em Linguística, aposentado desde 2006, trabalha como voluntário na pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Autor de obras sobre teoria e técnica Jornalística, seus livros integram bibliografia básica para cursos de Jornalismo.

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