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OBSERVATÓRIO - A derrota e o silêncio dos capitães de voto - AFROPRESS

A derrota acachapante do movimento negro partidário nas eleições deste ano deveria merecer uma profunda reflexão, um balanço crítico que fosse. Mas, isso não acontecerá, como se pode ver pelo silêncio ensurdecedor com que os números e o fiasco nas urnas dos nomes de maior visibilidade e expressão foram recebidos pelas entidades organizadas, todas elas, em menor ou maior grau vinculadas aos partidos.
À maneira do avestruz que costuma enfiar a cabeça na areia para poupar-se do desconforto da realidade, também isso que conhecemos por movimento negro partidário, fará o mesmo, na expectativa de que, todos esqueçam o vexame e bola prá frente. Possivelmente farão como na derrota do Brasil por 7 a 1 no jogo com a Alemanha: foi um apagão, dirão como disse Felipão para justificar o vexame.
Prá começar é importante definir o que venha a ser o que chamamos de movimento negro partidário. Trata-se desse tipo de movimento negro cooptado pelos partidos políticos – de esquerda, direita ou centro, se é que tais classificações no conglomerado com 32 partidos do atual sistema político-eleitoral e partidário, faz algum sentido.
Ao invés de levar aos partidos as demandas da maioria da população negra, que continua, na essência, excluída do acesso aos direitos básicos da cidadania, seus líderes optam por transformarem-se em porta-vozes das legendas às quais se filiam, e servem, capitães de votos dos menos informados.
São símbolos de uma inclusão que jamais houve, alegorias esvaziadas de uma democracia racial que é apenas uma miragem. Em troca dos bons serviços prestados a tais partidos – que praticam racismo institucional ao reproduzirem o  existente na sociedade – esse movimento chapa branca, se contenta com os carguinhos – um DAS [Divisão de Assessoramento Superior] aqui, outro alí, uma emendazinha parlamentar aqui, outra acolá – e assim seguem o cortejo engorssando o coro dos contentes.
O escandaloso silêncio – tanto no primeiro, quanto no segundo turno – que os candidatos majoritários dedicaram e estão dedicando às demandas da maioria, que somos nós, ignoradas, tornadas invisíveis, embora representemos 55% do eleitorado, é um exemplo disso.
Não houve, ao longo dessa campanha – transformada em campeonato de torcida organizadas –, nos três debates transmitidos pelas principais redes de TV até agora, uma única proposta, uma única idéia, por mais rala que fosse, para fazer frente à desvantagem históricamente acumulada no pós-Abolição pelos mais de 100 milhões de brasileiros pretos e pardos.
Uma única que fosse. Ao menos para lembrar que, ao final das contas, a herança maldita de quase quatro séculos de escravidão, está, como sempre esteve, presente, não é mero detalhe: é um dos elementos estruturantes, que faz com que o Brasil ocupe lugar de destaque no mundo no ranking da desigualdade social.
Não houve, igualmente, por parte de tais lideranças do tal movimento negro partidário, que vive de emendas parlamentares, de viagens e da ocupação do espaço do simbólico, uma única exigência, uma única reivindicação, uma única condição para apoio a este ou aquele candidato, o que passa a sensação óbvia, de que estamos todos muito contentes e, portanto, podemos aderir sem ressalvas aos candidatos que disputam voto.
Por isso, a derrota nas urnas de Edson Santos (foto 1) ex-ministro da SEPPIR, e parlamentar do grupo ligado ao ex-todo poderoso ministro da Casa Civil, José Dirceu, cumprindo pena na Papuda; do presidente da Frente da Igualdade Racial, na Câmara dos Deputados, Luiz Alberto, integrante do grupo dileto da ministra chefe da SEPPIR, Luiza Bairros (foto 2); e de Netinho de Paula (foto da capa) o pagodeiro e vereador do PC do B, que não conseguiu votos para se eleger, depois de tido como fenômeno eleitoral em 2010 obtendo quase 8 milhões de votos para o Senado, não é um dado qualquer.
É a resposta a esse tipo de movimento, que sobrevive dos restos que caem da mesa da Casa Grande, e não assume – uma única vez que seja – um mínimo de altivez para falar pela maioria dos negros brasileiros, que continuam órfãos de representantes e de representação neste Estado e nessa República construída sob os escombros do escravismo.

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