OBSERVATÓRIO - Israel retoma ataques em Gaza após Hamas rejeitar trégua - POR O GLOBO / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
Grupo militante islâmico classificou proposta egípcia de cessar-fogo de rendição e exigiu acordo completo sobre confronto
— Nesta manhã, convoquei os ministros e decidimos que Israel aceitaria o cessar-fogo. Eu disse que, se a Jihad Islâmica e o Hamas continuassem a disparar contra cidades israelenses, iria instruir o Exército para agir com força contra eles, e é assim que operamos nesta tarde. A Força Aérea bombardeou vários alvos na Faixa de Gaza, e esses ataques vão continuar. O Hamas vai pagar o preço por sua decisão de continuar esta campanha — disse o premier, para depois acrescentar:
— Teria preferido resolver isso diplomaticamente, e é isso que tentamos fazer, mas o Hamas não nos deixou nenhuma alternativa senão expandir a operação contra ele. Essa é a forma como vamos operar até chegarmos ao nosso objetivo, a restauração da calma através de um golpe significativo contra o terror.
Pela proposta egípcia, a trégua deveria entrar em vigor a partir das 9h da manhã (3h no horário de Brasília), depois de uma semana de ofensiva. A rádio militar israelense indicou que a resposta do gabinete de segurança, que reúne os principais ministros, foi apresentada alguns minutos antes do prazo fixado.
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O braço armado do movimento islâmico palestino Hamas, as Brigadas Ezzedine al Qassam, que controla a Faixa de Gaza, no entanto, rejeitou a proposta e exigiu um acordo completo sobre o confronto.
“Se o conteúdo desta proposta (de cessar-fogo) for exato, trata-se de uma rendição e o rejeitamos sem apelação”, indicaram as Brigadas em um comunicado. “Nossa batalha contra o inimigo se intensificará”, acrescentou.
CRUZ VERMELHA ALERTA PARA CRISE DE ÁGUA
A situação deteriora-se a cada dia, com centenas de milhares de palestinos sofrendo com a falta água após bombardeios aéreos israelenses destruírem o sistema de água e esgoto em Gaza. A Cruz Vermelha advertiu nesta terça-feira que os ataques podem provocar uma crise de água.
"Em poucos dias, toda a população da Faixa pode ficar desesperadamente sem água", afirmou em comunicado Jacques de Maio, chefe do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Israel e nos territórios ocupados.
O número de ataques israelenses chegou a 1.300 desde o início da operação "Limite Protetor", há oito dias, contra 900 projéteis disparados por Gaza. Ao menos 192 palestinos morreram e mais de 1.100 pessoas ficaram feridas. Hospitais de Gaza sofrem com a escassez de medicamentos e equipamentos, enquanto pacientes cruzam a fronteira com o Egito em busca de tratamento.
Um porta-voz dos serviços de emergência israelense informou à agência AFP que o primeiro homem morto em Israel desde o início da operação tinha 38 anos e estava entregando comida a soldados que atuam na região quando foi atingido por um foguete palestino.
No Golã sírio, ao menos quatro pessoas, entre elas duas mulheres, morreram em um ataque da aviação israelense contra três alvos administrativos e militares, informou o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH).
Apenas parte dos foguetes lançados pelo Hamas atingiu regiões urbanas de Israel. O Domo de Ferro, sistema israelense de interceptação de foguetes, teve até o momento êxito de 87%, segundo o jornal "Haaretz". Devido à eficiência do sistema e da imprecisão dos projéteis, os ataques do Hamas provocaram poucos danos em Israel.
ACORDO PREVÊ FIM DAS HOSTILIDADES MÚTUAS
O pedido para interromper as hostilidades foi feito um pouco antes de uma reunião de emergência dos ministros das Relações Exteriores da Liga Árabe no Cairo, convocada em caráter de urgência para discutir a ofensiva israelense na Faixa de Gaza.
A proposta de cessar-fogo egípcia teria como base o fim das hostilidades mútuas. Israel pararia com todo e qualquer ataque por ar e mar, além de estancar os preparativos para uma incursão terrestre. Ao mesmo tempo, todas as facções palestinas atuantes em Gaza deixariam de disparar foguetes e morteiros contra Israel.
As condições também incluem a reabertura dos postos de fronteira entre Israel e Gaza para a passagem de produtos e o relaxamento da proibição de ir e vir de pessoas. A oferta egípcia também incluía a abertura de negociações para a entrada de bens de primeira necessidade na região onde acontece o conflito. O país ainda havia sugerido receber nas 48 horas seguintes delegações de Israel e palestinos para iniciar discussões que ponham fim ao confronto.
Em sua primeira aparição desde o começo do confronto, na segunda-feira, o líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniyeh, tinha admitido, em vídeo, os contatos para uma possível trégua. O governo israelense também havia confirmado, afirmando que o gabinete de segurança discutiria a proposta egípcia para encerrar a operação "Limite Protetor".
KERRY EXORTA TODOS OS PARTIDOS A ACEITAREM A PROPOSTA
No Cairo para participar do esforço de negociação, o secretário de Estado americano, John Kerry, exortou a todos os partidos israelenses a aceitarem a proposta.
— A proposta egípcia para um cessar-fogo e negociações oferecem uma oportunidade para acabar com a violência e restaurar a calma. Saudamos a decisão do gabinete israelense de aceitá-la. Pedimos a todos os outros partidos que aceitem a proposta.
Pouco antes, os Estados Unidos advertiram Israel contra qualquer incursão terrestre na Faixa de Gaza. É a primeira vez que os EUA fazem uma advertência pública contra uma invasão israelense à Gaza. Netanyahu afirma que uma incursão pode ser necessária para enfrentar o Hamas.
— Ninguém quer ver uma ofensiva terrestre à Gaza porque isso colocaria mais civis em risco — disse o porta-voz da Caca Branca Josh Earnest.
Apesar do aviso aos aliados israelenses, a Casa Branca não condenou as mortes de palestinos, dezenas deles crianças. O governo americano sustenta que Israel tem o “direito” e a “obrigação” de defender seus cidadãos contra os ataques de mísseis vindos de Gaza.
Os EUA também vinha pressionando pelo cessar-fogo. Na última sexta-feira, o governo americano reforçou, por meio de seu porta-voz, Josh Earnest, que poderia ajudar a alcançar um acordo utilizando a influência que tem na região. O presidente americano, Barack Obama, já havia telefonado para Netanyahu, oferecendo a mediação dos EUA para resolver a crise.
— Estamos interessados em levar adiante os passos que demos há um ano e meio, em novembro de 2012, para proporcionar um cessar-fogo e tentar voltar para a situação anterior — disse o porta-voz da Casa Branca.
Em 2012, as negociações do cessar-fogo foram mediadas com a ajuda do Egito, que na época era governado por Mohamed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana, grupo com fortes ligações com o Hamas. A situação agora se inverteu. Mursi foi deposto e Abdel Fattah al-Sisi, um ex-general, preside o país. E a Irmandade passou a ser considerada um grupo terrorista.
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