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OBSERVATÓRIO - O anonimato e a violência das redes estão chegando às ruas - Escrito por Daniel Pearl - 18 Agosto 2013

 


Por Gustavo Castañon(*), para o QTMD? 
 

Persiste agora, com muito menos sucesso do que em junho, a tentativa de grupos anônimos e sem pauta política clara de sequestrar e mobilizar (retirando o controle
do MPL ou do Comitê Popular da Copa) os protestos de rua e ditar o ritmo da vida política do país. Destes, o mais influente na rede é o Anonymous, e o mais barulhento nas ruas o Black Blocs.
O Anonymous é uma rede de cyberativistas que se vê como um grupo desestruturado e descentralizado que opera sem comando e sem diretrizes ideológicas, focados em metas momentâneas. No Brasil, a marca Anonymous foi apropriada por grupos de direita ligados ao Instituto Millenium e Von Mises Brasil, que vergonhosamente protegeram o sistema financeiro, alvo dos movimentos Occupy no mundo, da onda de ocupações de 2011. Mas, na sua base de conectados, o Anonymous é um agrupamento de pessoas extremamente ingênuas, que aceitam ser lideradas por quem não conhecem nem a identidade nem a estratégia. Gente que acredita que a vida é um filme de Hollywood e que a internet (criada e com mainframe no Pentágono), particularmente o Facebook (propriedade de Mark Zuckerberg, acusado de ser colaborador da CIA), possa abrigar pessoas que desafiem o sistema e vençam o jogo sentados diante de seus PCs.
Já os Black Blocs são um grupo de anarquistas que tiram seu nome de uma tática de guerrilha urbana surgida na Alemanha do final dos anos 70, o “black bloc”, que consiste em formar um bloco de pessoas vestindo preto e cobrindo o rosto em passeatas, para praticar depredações e enfrentar a polícia. Protege-se as identidades e os olhos de gás e pimenta através de máscaras de gás, esqui, capacetes de motocicleta entre outros. O objetivo é atacar a polícia e a propriedade privada, se resguardando dos consequentes processos criminais.
O que há de comum na aparência destes dois grupos que protagonizaram o niilismo, a falta de rumo e o oportunismo que vimos no auge dos protestos brasileiros de junho é a ausência de identidade. Ausência de identidade civil e ideológica. Particularmente o Anonymous tem seus posts e convocatórias escritos sempre em linguagem intencionalmente simplória e genérica, que simula sair das massas. Busca mobilizar as pessoas escolhendo inimigos impopulares (como a “mídia”) com o objetivo de acumular popularidade.
Mas essa é só a aparência. Há um inimigo muito definido em suas estratégias, só eventualmente direcionadas a grandes corporações. Seu inimigo máximo é o estado. Interpretar o anarquismo como aliado das lutas da esquerda é uma temeridade intelectual. O anarquismo é mais facilmente interpretado como um ultraliberalismo que tem por fim suprimir o estado do que como qualquer outra coisa. Os delírios de fraternidade universal e coletivismo com a destruição das leis e dos governos só pavimenta a estrada para o império do mais forte. Seus frutos só são colhidos pela direita: uma juventude que odeia o estado, não acredita ou se engaja na vida partidária e legitima reações conservadoras. O anarquismo mobiliza muito mais o ódio à civilização do que um desejo reformador da sociedade.
O objetivo prático de grupos como os Anonymous e o Black Blocs é o mesmo da CIA. Debilitar os estados nacionais e o engajamento da juventude na política institucional. Eles aprofundam a obra que o dinheiro privado faz com os partidos, a grande mídia com as massas e o relativismo pós-moderno com a academia: desacreditar a política e os políticos, as ideologias e as utopias. Mais que destruir bancos, seu objetivo é destruir a política.
O nível de descrédito da classe política brasileira atingiu um novo patamar depois da campanha de 2010. A campanha de José Serra importou para o Brasil as táticas difamatórias do Partido Republicano norte-americano e transformou a internet num mar de calúnias. Perfis falsos foram montados aos milhares, comunidades, e a frequência e velocidade de divulgação de calúnias se tornou quase instantânea. A reação de nossos legisladores ou governos a isso foi nenhuma. Fechando os olhos, esperaram a autodesmoralização da internet. Mas isso não aconteceu. Isso não aconteceu porque ela é também um fantástico meio de divulgação rápida de informações e fatos reais, que fura o bloqueio da corrompida mídia tradicional. Mas sem saber como separar o joio do trigo, os internautas brasileiros se afogaram num mar de denúncias e ofensas sem resposta ou repercussão penal.
O resultado não podia ser outro. A vida política no Brasil, como previ em artigos da época, se tornou radicalizada, violenta e irracional, cheia de calúnias diárias e ofensas permanentes sem consequência legal. O resultado do acúmulo de ódio a nossos já inconfiáveis políticos saiu às ruas em junho. Como sabemos bem, quem foi às ruas basicamente foi a juventude de classe média conectada à rede. O pós-modernismo gerou seu primeiro fenômeno político de massas no país.
A maioria dessa juventude “conectada” desconfia dos partidos, das metanarrativas sociológicas e religiosas. Finalmente, encontrou um meio horizontal, fragmentado e aparentemente não ideológico de se organizar, e acha isso bonito. Passou a ser (des)informada por posts dos quais muitas vezes só lê a manchete e cursa universidades que estão mergulhadas ou na mercantilização do ensino ou no relativismo pós-moderno. Não tem ideologia e não quer uma para viver. Muitas vezes vota nulo ou não revela seu voto por vergonha.
E o voto nulo que desaparece nas contagens dos votos válidos toda eleição reapareceu nas ruas. Nele, também se inclui a extrema-esquerda sem representação no Congresso, a extrema-direita fascista e sociopata saudosa da tortura e do regime militar, o ateísmo evangélico da marcha das vadias e todo tipo de extremistas envenenados pela poluição digital das redes. Afinal de contas, a estratégia da extrema-direita e da extrema-esquerda é sempre a mesma, só muda depois do golpe militar, quando um deles vai para o pau de arara.
Hoje estamos numa nova fase dos protestos em que eles se tornaram menores e mais radicais. É fato que eles adquiriram pautas políticas mais claras, como o fora Cabral do Rio. Isso dificulta a manipulação pelo Anonymous, mas não o oportunismo dos Black Blocs. Invasão de eventos alheios, depredação generalizada e penetração de imagens sacras no ânus e na vagina (como vimos pela rede na última “Marcha das Vadias”) são parte do novo momento das ruas. Se em parte isso esvazia as manifestações e provoca rejeição dos 190 milhões que ficaram em casa, também acirra ainda mais os ânimos nacionais.
Diante desse cenário, o novo marco civil da internet se tornou uma necessidade imperiosa. Garantir liberdades na rede implica na criação de meios para a responsabilização penal de difamadores e desativação de perfis falsos e criminosos. Quem usa máscara numa democracia é fora da lei. Quer conspirar contra ela. Quer caluniar, depredar e atacar sem consequências. Quer disseminar o ódio, a violência e o medo se escondendo da responsabilidade no anonimato das massas. E isso inclui a própria polícia. As máscaras físicas e digitais tem que cair em nosso país antes que caia nossa democracia. Acreditem, isso é tão possível no futuro quanto um milhão sem rumo nas ruas em junho era possível em maio.
*Gustavo Arja Castañon é doutor em psicologia e professor de filosofia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Colabora com o “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Non abbiate paura“.
 
Fonte: QTMD.

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