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Entrando na era das paredes de vidro

Postado por Carlos Castilho em 10/5/2011



Quem se deu ao trabalho de observar as manchetes de notícias sobre internet publicadas nos últimos dez dias deve ter verificado que a maioria delas não era sobre novas tecnologias, mas sim sobre a algo ligado ao quotidiano de mais de um bilhão de usuários da web.
O tema do fim de privacidade individual ganhou uma enorme visibilidade e relevância, mostrando que a agenda envolvendo internet e computação está se deslocando cada vez mais para as questões sociais, politicas e econômicas ligadas à nova realidade digital. É mais uma etapa na transição para uma sociedade em que novas formas de organizar a produção provocam mudanças de comportamentos e valores.
O ataque ou defesa da privacidade estiveram no centro de acusações do criador do site Wikileaks contra a rede social Facebook, do governo da Coréia do Sul contra o mecanismos de buscas Google, de usuários contra as locadoras de vídeo nos Estados Unidos, dos compradores de produtos Sony contra a empresa e esta contra suspeitos de invadir a PlayStation Network, bem como a campanha contra a criação de uma superagência estatal vigilância da web na China.
A guerra em torno das informações pessoais existentes na web começa a centralizar os conflitos de interesse na rede, num processo cujo desfecho ainda é impossível vislumbrar.
O polêmico Julian Assange, criador do site Wikileaks, acusou a rede social Facebook de disponibilizar dados dos seus mais de meio bilhão de usuários para os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Assange chegou a classificar a maior rede social da internet como “a mais completa máquina de espionagem já inventada pelo homem”.
Esta acusação foi parcialmente endossada por grupos de ativistas britânicos que acusaram a Facebook de eliminar dezenas de perfis de pessoas e grupos durante o feriado que começou com o casamento do príncipe William e se prolongou pelo 1 de maio. Os ativistas alegam que a medida foi ideologicamente orientada, enquanto a rede Facebook afirma que ela é uma medida burocrática para corrigir falhas no registro de perfis.
Os conflitos envolvendo a Facebook são cada dia mais frequentes porque a rede passa a ter uma influência crescente nas polêmicas online por conta dos seus mais de meio bilhão de usuários.
É óbvio que com tanta gente conectada, a diversidade de problemas está diretamente relacionada aos interesses de cada criador de um perfil na rede social. Em fevereiro do ano passado, a Facebook fechou trinta perfis operados por presos ingleses que usavam a rede para intimidar desafetos.
A questão da privacidade no Facebook já é antiga porque em pelo menos três oportunidades anteriores o site tentou alterar as regras de proteção aos dados pessoais para alavancar a venda de publicidade, mas precisou voltar atrás por pressão dos usuários.
O caso da Sony virou um imbróglio internacional depois que a empresa acusou um programador de invadir o banco de dados da rede de usuários do jogo online PlayStation. A empresa japonesa foi processada por usuários cujos dados pessoais teriam sido capturados pelos invasores e acabou entrando na mira do governo norte-americano sob a suspeita de proteção deficiente às informações fornecidas por jogadores.
No Coréia do Sul, a polícia local invadiu os escritórios da Google no país para verificar denúncias de que o site de buscas havia recolhido informações pessoais de 600 mil usuários da internet móvel via celular sem consultá-los. As informações estariam sendo utilizadas pelo sistema de publicidade AdMob, criado pela empresa Google, para vender anúncios em telefones celulares.
Nos Estados Unidos, dois membros do Congresso norte-americano anunciaram a apresentação de um projeto de lei regulando a captura de dados fornecidos por adolescentes depois que uma pesquisa mostrou que os jovens são os principais responsáveis pelo vazamento de informações sobre seus pais e parentes próximos. Os adolescentes dificilmente adotam medidas de proteção da privacidade e são muito vulneráveis à propaganda online.
Situação similar está sendo investigada no caso das empresas norte-americanas de locação de computadores, depois que foi descoberto o caso de uma delas que inseriu nos equipamentos um sistema de identificação dos sites visitados pelo locatário. As empresas alegam que fazem isso para defender-se de vírus, mas o argumento da violação da privacidade pesa mais no veredicto dos juízes.
O certo é que com tantos casos pipocando a todo instante, a questão tende a ocupar cada vez mais espaços na mídia, intensificando um debate que ainda vai durar muito. Afinal, estamos ingressando numa era onde a ideia das paredes de vidro deixou de ser uma mera imagem literária.

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