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Quem se deu ao trabalho de observar as manchetes de notícias sobre internet publicadas nos últimos dez dias deve ter verificado que a maioria delas não era sobre novas tecnologias, mas sim sobre a algo ligado ao quotidiano de mais de um bilhão de usuários da web. O tema do fim de privacidade individual ganhou uma enorme visibilidade e relevância, mostrando que a agenda envolvendo internet e computação está se deslocando cada vez mais para as questões sociais, politicas e econômicas ligadas à nova realidade digital. É mais uma etapa na transição para uma sociedade em que novas formas de organizar a produção provocam mudanças de comportamentos e valores. O ataque ou defesa da privacidade estiveram no centro de acusações do criador do site Wikileaks contra a rede social Facebook, do governo da Coréia do Sul contra o mecanismos de buscas Google, de usuários contra as locadoras de vídeo nos Estados Unidos, dos compradores de produtos Sony contra a empresa e esta contra suspeitos de invadir a PlayStation Network, bem como a campanha contra a criação de uma superagência estatal vigilância da web na China. A guerra em torno das informações pessoais existentes na web começa a centralizar os conflitos de interesse na rede, num processo cujo desfecho ainda é impossível vislumbrar. O polêmico Julian Assange, criador do site Wikileaks, acusou a rede social Facebook de disponibilizar dados dos seus mais de meio bilhão de usuários para os serviços de inteligência dos Estados Unidos. Assange chegou a classificar a maior rede social da internet como “a mais completa máquina de espionagem já inventada pelo homem”. Esta acusação foi parcialmente endossada por grupos de ativistas britânicos que acusaram a Facebook de eliminar dezenas de perfis de pessoas e grupos durante o feriado que começou com o casamento do príncipe William e se prolongou pelo 1 de maio. Os ativistas alegam que a medida foi ideologicamente orientada, enquanto a rede Facebook afirma que ela é uma medida burocrática para corrigir falhas no registro de perfis. Os conflitos envolvendo a Facebook são cada dia mais frequentes porque a rede passa a ter uma influência crescente nas polêmicas online por conta dos seus mais de meio bilhão de usuários. É óbvio que com tanta gente conectada, a diversidade de problemas está diretamente relacionada aos interesses de cada criador de um perfil na rede social. Em fevereiro do ano passado, a Facebook fechou trinta perfis operados por presos ingleses que usavam a rede para intimidar desafetos. A questão da privacidade no Facebook já é antiga porque em pelo menos três oportunidades anteriores o site tentou alterar as regras de proteção aos dados pessoais para alavancar a venda de publicidade, mas precisou voltar atrás por pressão dos usuários. O caso da Sony virou um imbróglio internacional depois que a empresa acusou um programador de invadir o banco de dados da rede de usuários do jogo online PlayStation. A empresa japonesa foi processada por usuários cujos dados pessoais teriam sido capturados pelos invasores e acabou entrando na mira do governo norte-americano sob a suspeita de proteção deficiente às informações fornecidas por jogadores. No Coréia do Sul, a polícia local invadiu os escritórios da Google no país para verificar denúncias de que o site de buscas havia recolhido informações pessoais de 600 mil usuários da internet móvel via celular sem consultá-los. As informações estariam sendo utilizadas pelo sistema de publicidade AdMob, criado pela empresa Google, para vender anúncios em telefones celulares. Nos Estados Unidos, dois membros do Congresso norte-americano anunciaram a apresentação de um projeto de lei regulando a captura de dados fornecidos por adolescentes depois que uma pesquisa mostrou que os jovens são os principais responsáveis pelo vazamento de informações sobre seus pais e parentes próximos. Os adolescentes dificilmente adotam medidas de proteção da privacidade e são muito vulneráveis à propaganda online. Situação similar está sendo investigada no caso das empresas norte-americanas de locação de computadores, depois que foi descoberto o caso de uma delas que inseriu nos equipamentos um sistema de identificação dos sites visitados pelo locatário. As empresas alegam que fazem isso para defender-se de vírus, mas o argumento da violação da privacidade pesa mais no veredicto dos juízes. O certo é que com tantos casos pipocando a todo instante, a questão tende a ocupar cada vez mais espaços na mídia, intensificando um debate que ainda vai durar muito. Afinal, estamos ingressando numa era onde a ideia das paredes de vidro deixou de ser uma mera imagem literária. | ||||||||
Onde a Doutrina Monroe foi usada como instrumento de dominação A chamada Doutrina Monroe não surgiu por acaso, nem por boa vontade. Ela foi criada em 1823, quando os Estados Unidos ainda estavam se afirmando como nação, mas já pensavam como império em formação. O contexto era claro: países da América Latina estavam se libertando das coroas europeias, especialmente da Espanha e de Portugal, e as grandes potências do Velho Mundo observavam com interesse a possibilidade de retomar influência sobre essas regiões. Foi nesse cenário que os EUA se apresentaram como “protetores” do continente. O discurso oficial dizia que a Europa não deveria mais interferir nas Américas. Soava bonito, até necessário. Mas o objetivo real era outro: afastar os europeus para assumir o controle do território, da política e da economia do continente. Nascia ali a famosa frase: “A América para os americanos.” Só que nunca ficou claro quem eram esses “americanos”. Na prática, a doutrina estabeleceu que nenhum país d...
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