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A busca diária do escândalo

Coluna Econômica
Há uma profunda dissintonia entre alguns grandes veículos de comunicação e a opinião pública.
Em países de instituições mais avançadas, o escândalo é o ápice do jornalismo. É aquele momento crítico, em que o jornal coloca em jogo sua credibilidade, seu discernimento, sua capacidade de apuração. E cada denúncia é uma pancada, que derruba governos, parlamentares, curva empresas e poderosos.
Por isso mesmo, é matéria rara. Escândalo não dá em árvore. Principalmente o grande escândalo, o que mexe com instituições e o poder.
Por aqui, a crise do grande jornalismo tornou-se endêmica. O jornalismo comporta inúmeras pautas nobres, o grande perfil, a grande matéria de negócios, a grande matéria econômica crítica, grandes temas culturais, temas relevantes de políticas públicas. Mas o escândalo, qualquer um que seja, tornou-se pauta única, samba de uma nota só.
***
Na chamada grande mídia, utiliza-se a escandalização para tudo e para nada. O diretor de redação do jornalão quer acertar contas com quem o criticou? Basta uma matéria tratando como escândalo um fato normal. Determinada fonte não atendeu ao pedido de entrevista da revista semanal? Pau nela. O editor não foi com a cara de determinado político? Denúncia nele.
Esse jornalismo de acerto de contas compromete a imagem do veículo, passa a ideia de mesquinharia, de desrespeito.
De poder respeitado para poder temido? É essa a legitimação que se pretende para a ação da velha mídia?
***
O grande fator de disciplinamento do jornalismo é o respeito aos fatos, o discernimento, o conhecimento especialmente em relação a temas ligados ao mercado financeiro e à Justiça – dois dos fóruns centrais dos escândalos e que exigem conhecimento especializado.
Por aqui abriu-se mão desse conhecimento. O repórter consulta o SIAFI (Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal) pega qualquer informação sobre o personagem a ser atacado e escreve a matéria tratando como escândalo, como se o fato de estar no SIAFI fosse suspeito.
Vai-se além. Em nome da manchete diária escandalosa, matérias podem ser inventadas, pode-se mentir sobre a existência de gravações inexistentes, como prova da acusação, que nada acontece.
Tomem-se as principais capas da revista Veja no último trimestre do ano passado. A revista foi acusada frontalmente de estar mentindo nas principais denúncias formuladas. A defesa dos jornalistas consistia em alegar que dispunham de gravações comprovando as acusações. Desafiados a mostrá-las, jamais o fizeram. Porque as afirmações eram mentirosas.
***
Cria-se um terrível mundo do faz-de-conta que acaba comprometendo o próprio papel fiscalizador da mídia. A denúncia relevante acaba se perdendo no oceano de irrelevâncias que tem caracterizado esse festival diário de denúncias.
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Em algum momento a ficha irá cair. As denúncias serão mais raras e mais consistentes. Não serão utilizadas como jogada política e acerto de contas com adversários, mas como instrumentos de controle público.
Mas ainda haverá uma grande jornada rumo ao amadurecimento. E, acredito, não se dará no campo da velha mídia.

Comentários

  1. Essa abordagem serve para refletirmos sobre algo que estamos vivenciando constantemente em Araçatuba: o denuncismo por si só.

    Por aqui há um agravante, quem denuncia parte sempre do mesmo veículo de comunicação e o alvo dos ataques é sempre o mesmo. Isso é relevante, na medida em que mostra uma perseguição sistemática e a desonestidade jornalística de quem coloca seus interesses comerciais acima do interesse público (mas não tem coragem de admití-lo).

    Chamou-me a atenção o fato de que um exercício de reflexão nos mostra que grande parte, a maior parte, quase todas as denúncias surgem de relações espúrias entre fonte (única fonte em se tratando de política) e jornalista, do despreparo técnico da equipe do jornal em apurar dados, e daqueles interesses financeiros que citei anteriormente.

    Pois bem, o denuncismo é balizado pelas metas do veículo: gerar pautas sequenciais que preencham as páginas do jornal, derrubar servidores e secretários, fazer com que o Judiciário mova ações por conta da publicação de reportagens, chantagear o poder público em busca de anúncio.

    Em sabendo disso, minha dica é que não tenhamos medo, pois devemos ter em mente que quem nos cobra também nos deve... Não somos menos nem menores. Não tenhamos a ilusão que o denuncismo vai cessará... pois não vai... pode diminuir, mas não vai parar. Tenhamos força e convicção de que estamos certos em nossas decisões, corretos em nosso projeto de fazer de Araçatuba uma cidade cada vez melhor.

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